Quer mudar o Brasil, mas e a calçada? Imóveis atribuídos a Capitão Contar viram alvo de reclamações em Campo Grande
Enquanto o candidato ao Senado fala em “mudar o Brasil” e combater a criminalidade, moradores da região da Rua Calarge questionam a situação de imóveis atribuídos a ele
Rua Calarge, nos números 503 e 507, relatam preocupação com a situação de dois imóveis que, segundo essas informações, estariam sem manutenção adequada e apresentando sinais de abandono. Com o início da campanha eleitoral, o cardápio político volta a ficar recheado de promessas grandiosas. Tem candidato prometendo transformar o Brasil, combater a criminalidade, colocar ordem na casa e, dependendo do discurso, quase descobrir a cura para todos os males da República.
Entre os nomes que entram nessa disputa está o Capitão Contar (PL), candidato ao Senado por Mato Grosso do Sul. Em suas próprias plataformas, o político fala em “mudar o Brasil” e já defendeu publicamente endurecimento no combate ao crime.
Mas eis que surge uma pergunta bem mais modesta — e talvez mais difícil de responder: como está a situação dos imóveis atribuídos ao candidato em plena área urbana de Campo Grande?
Do discurso nacional para a realidade da calçada
Moradores e pessoas que circulam pela região da Rua Calarge, nos números 503 e 507, relatam preocupação com a situação de dois imóveis que, segundo essas informações, estariam sem manutenção adequada e apresentando sinais de abandono.
A reclamação envolve principalmente a falta de limpeza e conservação dos locais. Segundo relatos recebidos pela reportagem, a situação estaria favorecendo a presença de pessoas em situação de rua e usuários de drogas, além de provocar preocupação entre moradores das proximidades.
Importante: a reportagem não afirma que o proprietário seja responsável por qualquer crime eventualmente praticado na região, tampouco que exista relação entre os imóveis e os roubos relatados por moradores. A questão levantada é outra: quem é responsável pela conservação dos imóveis e quais providências estão sendo tomadas?
Porque, convenhamos, administrar um imóvel não exige maioria no Senado, cargo no Executivo ou autorização de Brasília. Às vezes começa com algo bem menos glamouroso: mato cortado, lixo recolhido e portão em condições de impedir que o imóvel se transforme em problema para a vizinhança.
Combate ao crime começa onde?
Contar construiu parte de sua atuação política justamente em torno de pautas como segurança pública, combate à corrupção e fiscalização. Em seu site oficial, o candidato também destaca propostas relacionadas à transparência e eficiência na gestão pública.
Por isso, a situação relatada pelos moradores merece esclarecimento.
Se a reclamação procede, seria interessante saber se os imóveis estão regularizados, quem responde pela manutenção, quando foi realizada a última limpeza e se já houve notificações por parte do poder público.
A pergunta é simples: se um candidato pretende ajudar a administrar os grandes problemas do Brasil, quem cuida dos pequenos problemas que começam na própria porta?
Não se trata de exigir que candidato algum seja prefeito de cada rua onde possui patrimônio. Trata-se de uma cobrança legítima sobre conservação e responsabilidade patrimonial, especialmente quando moradores afirmam que determinado imóvel estaria provocando transtornos no entorno.
A vizinhança quer respostas
Também seria importante saber se existem registros de ocorrências policiais relacionadas especificamente aos imóveis ou ao entorno, se a Prefeitura realizou fiscalização e se houve alguma notificação sanitária ou urbanística.
Até o fechamento desta reportagem, não foram localizados, nas fontes públicas consultadas, documentos oficiais que comprovem as acusações relatadas pelos moradores. Por isso, o espaço permanece aberto para que Capitão Contar ou seus representantes esclareçam a situação dos imóveis e apresentem sua versão dos fatos.
E talvez seja justamente essa a oportunidade de transformar uma cobrança incômoda em demonstração prática de coerência.
Porque prometer mudar o Brasil rende manchete.
Mas manter a própria casa em ordem também rende.
OPINIÃO — Nos Corredores do Poder
A política brasileira tem uma tradição curiosa: quanto maior o problema apresentado pelo candidato, maior parece ser a solução prometida.
Brasília vira o alvo. O Congresso precisa ser transformado. O Brasil precisa ser resgatado. A segurança precisa endurecer. A corrupção precisa acabar.
Tudo muito bonito no palanque.
Mas existe uma velha regra que continua funcionando: antes de querer consertar a República, talvez seja prudente mostrar que consegue cuidar do próprio quintal.
Se os imóveis da Rua Calarge realmente estão nas condições relatadas pelos moradores, a cobrança é absolutamente legítima e merece resposta.
E se não estão, melhor ainda: basta mostrar à população a situação real, apresentar os documentos e colocar um ponto final na história.
No fim das contas, o eleitor não precisa de salvador da pátria. Precisa de político que consiga responder perguntas simples sem transformar cada cobrança em guerra ideológica.



COMENTÁRIOS